Logo Capoeira Palmares de Paris www.capoeira-palmares.fr

Association de capoeira PALMARES de Paris.

symbole courrier
contact

revisão gráfica 22 NOV 2004

 

Waldeloir Rego
Capoeira Angola -- ensaio sócio-etnográfico

O livro Capoeira Angola, da autoria de Waldeloir Rego, e publicado na Bahia em 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira.

Waldeloir Rego, reconhecido estudioso da cultura afro-baiana, nasceu no dia 25 de agosto de 1930, na cidade de Salvador, e faleceu na mesma cidade no dia 21 de novembro de 2001.

O seu Capoeira Angola, de 1968, é geralmente reconhecido como um livro fundamental para o estudo da capoeira. Infelizmente, não é fácil encontra-lo. Esgotada a esperança de ver Capoeira Angola -- ensaio sócio-etnográfico reeditado pelo autor ou mesmo reimpresso, não podendo entregar cópia digital à comunidade devido à continuação dos direitos autorais, só podemos incentivar a procura em bibliotecas públicas colocando aqui um índice detalhado do livro e a conclusão (capítulo XVII. Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira), esta na sua integra.


Rego, Waldeloir, Capoeira Angola -- ensaio sócio-etnográfico,
Editora Itapoan, Salvador, 1968 - Obra publicada com a colaboração da Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado da Bahia. In-8.vo de 400 páginas. Ilustrações de Hector Júlio Paride Bernabó (Carybé).

Indice da obra

I. A Vinda dos Escravos

(pp. 1-7) Escravos negros levados para Portugal a partir de 1441.
(pp. 8-9) Consentimento da Igreja católica à escravidão dos Africanos.
(pp. 9-14) Questão da origem dos negros trazidos para o Brasil; texto da ordem de Ruí Barbosa mandando destruir os documentos da escravidão[nota 1], fontes existentes sobre a chegada dos primeiros escravos no Brasil.
(pp. 14-16) Questão da origem dos primeiros negros escravos, o termo Guiné, o Angola.

II. O Termo Capoeira

(pp.17-22) Registro do termo tupi-guarani, no sentido de mato, e das polémicas que gerou.
(pp.22-23) A ave capoeira.
(pp.23-25) Etimologia portuguesa, no sentido de cesto.
----Ligações hipotéticas destes termos ao jogo.
(pp. 25-29) Resumo dos sentidos do termo atual definido em dicionários [nota 2].

III. A Capoeira

(pp.30-32) Se os africanos trouxeram a capoeira da Africa, especificamente de Angola, ou a inventaram no Brasil.
(pp.32-34) A capoeira é uma só, com muita variações, inclusive a de Mestre Bimba, (polémica contra Edison Carneiro).
(p. 35) Opinião do autor sobre a origem da capoeira.
(pp. 35-37) Desenvolvimento da capoeira (na Bahia) segundo o autor.
(p. 38) Independência da capoeira e do candomblé.
(pp. 38-42) Caso de interferência entre as crenças populares e a capoeira.

IV. A Indumentária

(p. 43) Não existia traje específico, é produto do turismo.
(pp. 43-46) Trajes e modas populares na Bahia de outrora.

V. O Jogo da Capoeira

(p. 47) Descrição do jogo - "hino ou ladainha como outros chamam".
(p. 50) Desenvolvimento do canto e do jogo.
(p. 54) Jogo de apanhar dinheiro do chão com a boca.
(p. 55) Provocações.
(p. 56) Final do jogo.

VI. Toques e Golpes

(pp. 58-59) Jogo sem os toques no passado: Rugendas.
(p. 59-62) Toques comuns e toques particulares a mestre ou academia.
(p. 62-64) Comentário; - os toques de aviso e de cavalaria e a repressão à capoeira.
(p. 64) O toque muzenza de Canjiquinha, o panha-laranja-no-chão-tico-tico.
(p. 65-68) Listas de golpes dos diversos mestres.
(p. 68-69) Breve comentário.

VII. Os instrumentos musicais

[p. 70]

Segundo o que se tem escrito e o que consegui apurar de capoeiristas antigos, o acompanhamento musical da capoeira desde os primórdios até nossos dias, já foi feito pelo berimbau, pandeiro, adufe, atabaque, ganzá ou reco-reco, caxixi e agogô. No presente, só vi, até agora, acompanhamento com berimbau, pandeiro, caxixi e agogô, nas academias de Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha) e Canjiquinha (Washington Bruno da Silva).
(pp. 70-71) falta de classificação destes instrumentos.

Berimbau

(p. 71) os seus númerosos nomes, do qual gunga é o único usado na Bahia.

Pandeiro

(p. 77)

Adufe

(p. 80) O adufe é um pequeno pandeiro de formato quadrado...

Atabaque

(p. 83) - Entre nós, atualmente, não é mais usado na capoeira.

Ganzá

(p. 85) - Nunca vi o ganzá tocado na capoeira.

Caxixi

(p. 85)

Agogô

(p. 87)

VIII. O Canto

(pp. 89-90) Origem e temas dos cantos
(pp. 90-124) Transcreve grande número de letras de cantigas (139 itens).

IX. Comentário às Cantigas

FONÉTICA

CONSOANTES
lh -i
l = r
r final
queda do m
Perda do r
Perda do s
VOGAIS
o = u
e=i
DITONGOS
ou = o
ei=ê
aférese
síncope
apócope
prótese
epêntese
paragoge
metátese
MORFOLOGIA
substantivo
pronome
verbo
preposição
advérbio
SINTAXE

LÉXICO DAS CANTIGAS

(p. 141)
Aspeto folclorico
(pp. 216-218) Tema berimbau
(p. 218) Tema superstição
(p. 219-235) Tema Pedro Cem
Cantigas de escárnio e de mal dizer
(p. 235)
Cantigas de berço
(p. 240)
Cantigas de devoção
(p. 242)
Cantigas agiologicas
(p. 244)
Cantigas geográficas
(p. 245)
Cantigas de louvação
(p. 249)
Cantigas de sotaque e de desafio
(p. 250)
Cantigas de roda
(p. 254)
Cantigas de peditório
(p. 255)
Aspeto etnográfico
(p. 256)
Aspeto sócio-histórico
(p. 257)

X. Capoeiras Famosos e seu Comportamento na Comunidade social

(p. 260 sq.) Introdução. Capoeiras cariocas do passado, Manduca da Praia e outros.
Capoeiras baianos do passado, Besouro, outros.
Samuel Querido de Deus, Najé
Mestre Bimba
Pastinha
Canjiquinha
Gato, Cobrinha Verde, Traíra, Waldemar da Paixão, outros. João Grande.
Comportamento do capoeirista na comunidade.

XI. As Academias de Capoeira

Mestre Bimba, o primeiro a abrir uma academia; seu regulamento, as 14 lições.
Academias dos mestres Pastinha, Gato, Caiçara, Arnol, Augusto de S.Pedro, Bigodinho, Santana, Cobrinha Verde, Carlos Sena
Organização das academias, mestres, contra-mestres
Atividade no turismo

XII. Ascenção Social e Cultural da Capoeira

Marginalidade; código penal; repressão legal e fora da lei.
A polícia no Brasil.
Capoeiras marginais do Rio de Janeiro século XIX
Sublevação dos soldados estrangeiros em 1828 (ler trecho)
Repressão de 1890 e crise no governo devido à prisão de Juca Reis
Guarda Negra
A capoeira socialmente admitida: mestre Bimba

XIII. A Capoeira no Cinema e nos Palcos Teatrais

[p. 318]

Em artigo publicado em 1963, fui o primeiro a denunciar o elemento turismo na Bahia, infelizmente mal orientado, como o agente responsável por uma série de modificações na estrutura básica de nossa cultura popular, no caso enfocando as pressões económicas diretas ou indiretas, sofridas pelos candomblés, contribuindo assim para um desvio normal na sua evolução, levando-os a uma descaracterização, que dificilmente cairia, não fosse perturbado o ritmo normal da evolução histórica e sócio-etnográfica a que estão condicionados.

No que tange à capoeira, se a coisa não correu às mil maravilhas, também não lhe deu um saldo desastroso. É claro que houve grupos de capoeiristas e até academias que se baratinaram ante as pressões e tentações económicas, descaracterizando se por completo, mas verdade se diga que uma boa parte esteve e está fora dessas influências e, mais importante que tudo, a capoeira arrancou do turismo o que de melhor ele podia lhe dar, que foi a promoção e divulgação dentro e fora do território nacional. Olhada como coisa exótica, a capoeira da Bahia passou a ser, ao lado do candomblé, procurada por toda espécie de turista, pelos etnógrafos, artistas, escritores e cineastas.

(p. 319) Lázaro Tôrres: Briga de Galos;
----- Marcel Camus, Os Bandeirantes, col., Fr.-Br., 1960;
----- Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas, Pt.-Br., 1961 (Palme d'Or, Cannes 1962);
----- Glauber Rocha, Barravento, Br., 1961, música de capoeira do mestre Canjiquinha;
----- Aloísio T. de Carvalho, Senhor dos Navegantes, Br., 1964.
(pp. 320-321) Uso do berimbau como símbolo de prêmio de cinema
(p. 322) Capoeira estilizada no palco: Solano Trindade.
(p.323) Capoeira estilizada no palco na Bahia: Grupo Folclórico da Bahia de Ubirajara Guimarães Almeida.

XIV. A Capoeira nas Artes Plasticas

(p. 324) Rugendas
(p. 324) Debret
(pp. 325-328) Carybé
(p. 328) Mário Cravo Júnior, Aldemir Martins.

[p. 328]

   "Na pintura, a capoeira tem sido aproveitada pelos pintores primitivos, que nos últimos tempos têm proliferado de maneira assustadora, trazendo, na sua maioria algo de ruim e comprometedor, refletindo negativamente no que há de válido na pintura primitiva brasileira."

XV. A Capoeira na Música Popular Brasileira

(p. 329) A Bossa Nova benefica ao tema.
(p.330) Baden-Powell
(pp. 331-334) Muito antes, Batatinha...
(pp. 334-335) Voltando a Baden e Vinicius... (letra de Berimbau, 1963)
(pp. 335-352) Nara Leão, Vinicius e Tom Jobim, Geraldo Vandré, Paulo da Cunha, Jair Rodrigues, Edu Lôbo, Jorge Ben, Jackson do pandeiro, Codó, Gilberto Gil: lista comentada de obras, letras de canções.

XVI. A Capoeira na Literatura

Manuel Antonio de Almeida
Machado de Assis
Aluizio Azevedo
Melo Morais Filho)
Manuel Raimundo Querino
Henrique Maximiliano Coelho Neto ("Nosso Jogo", em Bazar, 1928)
Viriato Correia ("Os Capoeiras" em Casa de Belchior)
Jorge Amado
Odorico Tavares
Gilberto Amado

XVII Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira

(pp. 359-363) ler o capítulo conclusivo de Waldeloir Rego.

Bibliografia

Livros
Periódicos
Correspondência
Gravação
Películas
Fontes Audio-Visuais

Indice das Matérias
Indice Remissivo


Trechos

XII. Ascenção Social e Cultural da Capoeira

(...)

Os tumultos e desordens entre capoeiras e policiais prosseguiram. Tentando uma solução, resolveu o então intendente de polícia, desembargador João Inácio da Cunha, a 10 de fevereiro de 1823, nomear Manuel José da Mota, para se encarregar, juntamente com outros indivíduos sob suas ordens, de permanecer no encalço dos capoeiras e desordeiros, prendendo-os tão logo delinquam. Também deveria fazer cumprir o edital de 26 de novembro de 1821, que determinava o fechamento de açougues, tavernas e estabelecimentos congêneres às 10 horas da noite, sob pena de prisão. A medida não surtiu efeito, tendo Clemente Ferreira França ordenado ao brigadeiro chefe do corpo de polícia o reforçamento das patrulha pela cidade para impedir qualquer aglomeramento de negros capoeiras e pessoas outras, no intuito de evitar desordens através da Portaria de 8 de dezembro de 1823. Nada resolve, nada impediu que os capoeiras estivessem sempre em luta. Agora são vistos numa luta meritória e assinalados nas pagínas da história como heróis nacionais.

Com a guerra do Rio da Prata, a coroa se viu na contigência de contratar estrangeiros, para engrossarem as fileiras do exército brasileiro, importando assim elementos da Irlanda, Alemanha e Inglaterra. Dêsse contingente estrangeiro, uma parte já havia seguido para o Rio Grande do Sul e a outra parte, constante de três batalhões, um irlandês e outro alemão se achava no Rio de Janeiro, aquartelados no Campo de Santana, no Campo de São Cristovão e na Praia Vermelha, reunindo tudo, cerca de duas mil praças, mais ou menos. Acontece, porém, que esses batalhões se achavam tremendamente descontentes com o govêrno e a cada instante davam prova disso, com a prática de atos de indisciplina. Não é assim que o comandante do contingente alemão, que se encontrava ocupado em São Cristóvão, ordenou que castigasse alguns soldados, que haviam praticado atos de indisciplina. Resultado -- na manhã de 9 de junho de 1828, eles se rebelaram e prenderam o major destacado para fazer cumprir as determinações do comandante, fazendo grande tumulto e de armas em punho, abandonaram os quartéis e fizeram uma carnificina, matando, devastando e saqueando tudo. E à proporção que a notícia se espalhava, os outros contingentes iam se incorporando aos sublevados. O contingente alemão da Praia Vermelha se incorporou aos seus companheiros, em São Cristóvão. Atitude idêntica tiveram os irlandeses do Campo de Santana e os que se achavam de guarda, em vários edifícios e estabelecimentos públicos, durando essa intranqüilidade de 9 a 10 de junho de 1828. Pois bem, em toda inquietação e balbúrdia tiveram papel de relevante importância os tão combatidos capoeiras. Basta que se tome por testemunho J.M. Pereira da Silva e se saiba que os sublevados, "atacados por magotes de pretos denominados capoeiras, travam com eles combates mortíferos. Posto que armados com espingardas, não puderam resistir-lhes com êxito feliz, e a pedra, a pau, à força de braços, caíram os etrangeiros pelas ruas e praças públicas, feridos grande parte, e bastante sem vida(913)."

nota 913: J.M Pereira da Silva, Segundo Periodo do Reinado de Dom Pedro I no Brasil -- Narrativa Historica., B.L. Garnier, Livreiro-Editor Rio de Janeiro, 1871, pág. 289.

Ler sobre este motim Walsh, Debret -- e a nossa síntese

Volta para o Índice, cap. 12.

[p. 359]

XVII. Mudanças Sócio-Etnográficas na Capoeira

Primitivamente a capoeira era o folguedo que os negros inventaram, para os instantes de folga e divertirem a si e aos demais nas festas de largo, sem contudo deixar de utilizá-la como luta, no momento preciso para sua defesa. As festas populares eram algo de máximo na existência do capoeira, era o instante que tinha para relaxar o trabalho forçado, as torturas e esquecer a sua condição de escravo, daí farejarem os dias de festas com uma volúpia inconcebida, pouco se lhes importando se a festa era religiosa, profana ou profano-religiosa. As procissões com bandas de música eram o chamariz para os capoeiras e, se tinham um pretexto para arruaças, faziam-no sem a menor preocupação de estarem perturbando um ato religioso. A propósito desses momentos, lembra Gilberto Freyre que:-- "As vezes havia negro navalhado; moleque com os intestinos de fora que uma rede branca vinha buscar (as redes vermelhas eram para os feridos; as brancas para os mortos). Porque as procissões com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato de cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos engenhos". Vivia assim o capoeira em seu status social sem nenhuma simbiose com outro, capaz de modificar a sua estrutura.

[p. 360]

Com o passar dos tempos e cada vez mais crescente a sua fama de lutador e de implantar grandes desordens em fração de segundos, sem possibilidade de ser molestado, conseqüentemente ficando oculto, para quem estava a serviço, o capoeira passou a ser a cobiça de políticos. Serviria de instrumento de luta ora para a nobreza, que dava os seus últimos suspiros, ora para os republicanos, que lutavam encarniçadamente para obterem a vitória sobre o trono, daí os graves acontecimentos que abalaram o país, nos fins do século passado, já anteriormente estudados neste ensaio e registrados por Gilberto Freyre, ao fazer a história da decadència do patriarcado rural e o desenvolvimento do urbano. Com isso, a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura -- a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando e "com essa transformação verificada nos meios finos ou superiores, deu-se a degradação das artes e hábitos mestiços que já se haviam tornado artes e hábitos da raça, da classe e da região aristocrática, em artes e hábitos de classes, raças e regiões consideradas inferiores ou plebéias. Foram várias essas degradações; e algumas rápidas". Como se vê, a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a essas transformações.

[p. 361]

Esse estado de coisas veio se arrastando e se desenvolvendo até 1929, com o advento de Mestre Bimba, que tira a capoeira dos terreiros e a põe em recinto fechado, com nome e caráter de academia, onde os ensinamentos passaram a ter um cunho didático e as exibições possibilitaram a presença de outras camadas sociais superiores. Desse modo os quadros da capoeira passaram por modificações profundas. A classe média e a burguesia para lá acorreram, a princípio para assistirem às exibições e depois para aprenderem e se exibirem a título de prática de educação física, daí a 9 de julho de 1937 o governo oficializar a capoeira, dando a Mestre Bimba um registro para sua academia. Um status social superior ao dos capoeiras invade as academias e os afugenta. Os que resistem, por minoria, se esforçam para se enquadrarem no modo de vida do invasor, porém sendo tragados por ele, começando assim a sua alienação e decadência como capoeira. Forçando uma compostura de rapaz-família, exibem-se somente em recintos fechados, salões burgueses, palácios governamentais e jamais onde primitivamente se exibiam, como por exemplo nas festas de largo. Como já tive oportunidade de salientar, em virtude de nenhuma academia querer exibir-se nas festas populares, o órgão oficial de turismo municipal da Bahia convidou várias academias para comparecerem às referidas festas pagando-lhes as exigências. Então houve um cafuso, mestre de uma academia, que, ao saber da finalidade do convite, declinou, alegando ser sua academia freqüentada por uma casta já referida, não podendo misturar-se com o povo de festa de largo.

[p. 362]

Mas o agente negativo no processo de decadência da capoeira, sociológica e etnograficamente falando, foi o órgão municipal de turismo. Detentor de ajuda financeira, material e promocional, corrompeu o mais que pôde. Embora o referido órgão tenha por norma a preservação de nossas tradições, os titulares que por ele têm passado, por absoluta ignorância e incompetência, fazem justamente o contrário, direta ou indiretamente. Lembro-me bem de presenciar um deles interferir na indumentária das academias e os seus responsáveis acatarem pacatamente; e infeliz do que não procedesse assim -- estaria banido da vida pública para sempre. Houve época em que as academias eram fantasiadas como verdadeiros cordões carnavalescos, cada qual disputando cores mais berrantes e variadas em suas camisas e calças. Já falei também de um mestre de capoeira que foi consultar um dos diretores de turismo da possibilidade de colocar número nas costas de seus discípulos, como se fossem jogadores de futebol, mas que em boa hora o bom-senso baixara na cabeça do referido diretor, proibindo terminantemente. O fato é que, quanto mais palhaçada faz a academia essa é a preferida do órgão público. No momento em que escrevo este ensaio existe uma academia com amparo financeiro, material, promocional e ainda com direito a se exibir no próprio Orgão, até muito tempo com exclusividade, em detrimento de outras, porém hoje apenas a coisa é mascarada com a presença de uma outra, quando em realidade o órgão não deveria promover exibições dessa espécie, em seu próprio e sim escoar os turistas para as diversas academias. Pois bem, essa academia, que por sinal possui um grande mestre e excelentes discípulos, está totalmente prostituida. Com a preocupação de não perder o ponto, em detrimento de outra, a dita faz misérias, em matéria de descaracterização. A certa altura da exibição, o mestre perde a sua compostura de mestre, diz piadas, conta anedotas, faz sapateado com requebros e apresenta alguém para fazer um ligeiro histórico da capoeira, onde as maiores aberrações são ditas. Depois faz um samba de roda ao som dos instrumentos musicais da capoeira, vindo para a roda sambar, cabrochas agarradas de última hora, passista de escola de samba ou profissional amigo do mestre, que por acaso aparece no local. De certa feita, perguntei-lhe o porquê daquilo, ao que me respondeu que era pra não ficá monoto (ele queria dizer monotono) e o turista ir-se embora. A grande lástima é que essas coisas continuam a ter a cobertura oficial.

Lamentavelmente, o quadro atual das academias de capoeira é esse, variando apenas a intensidade das mudanças sociológicas, etnográficas e o grau de decadência. Nos bairros bem afastados, longe das tentações ventiladas e também talvez porque jamais tenham acesso a elas, existem capoeiristas que praticam o jogo apenas por divertimento, no maior estado de pureza e conservação possíveis e enquadrados no seu status social.


MINHAS NOTAS

nota 1. 0s documentos destruídos na ocasião foram muito menos do que aqueles perdidos por descaso ao arquivos ou outras causas, e não impediram pesquisas sérias sobre o assunto. [volta].

nota 2. As etimologias africanas foram pesquisadas posteriormente. [volta].


Volta para cronologia de textos históricos.

Retour vers chronologie de documents históriques.

Back to documents timeline.


Lucia Palmares & Pol Briand
3, rue de la Palestine 75019 Paris
Tel. : (33) 1 4239 6436
Email : polbrian@capoeira-palmares.fr

Association de Capoeira Palmares de Paris