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Association de capoeira PALMARES de Paris.
A aparição do termo capoeira na relação da revolta das tropas estrangeiras no Rio de Janeiro em 1828 mostra a invenção interessada de uma tradição da capoeira...
Este autor, de que Capistrano de Abreu escreveu
Ninguém poderá afirmar com segurança que ignora totalmente
a História do Brasil sem antes haver lido a obra do sr. Pereira da Silva
[1]
é o inventor da intervenção dos capoeiras.
Todos os escritores anteriores concordam em dizer que as autoridades brasileiras
mobilisaram o povo, escravos incluídos, para impedir a comunicação
dos três focos da revolta. O populacho (populace
) para
Debret, os moleques
para Walsh
massacraram os revoltosos isolados, enquanto as tropas brasileiras, apoiadas por
infantaria de marinha francesa e inglesa desembarcada dos navios estacionados na Baia,
atacavam com canhões os seus quarteis.[2]
Em 1871, o termo capoeira virou objeto de polémica no Rio (ver os relatórios de polícia). Pereira da Silva não liga pelo anacronismo e usa a palavra onde as fontes usavam termos muito menos específicos; infelizmente, outro autor, ocupado em escrever a história da polícia do Rio de Janeiro, o copiará palavra por palavra.
Este deslize vai servir aos escritores que desejam, por volta de 1900, reabilitar a ginástica e a luta que praticavam os capoeiras, agora eliminados da rua, para estabelecer uma correspondância entre capoeiragem e patriotismo brasileiro. De uma vez, a estória integra as classes dirigentes e o povinho, inclusive os marginais, em uma nação brasileira que levanta-se contra os estrangeiros; e esta nação possui entre outras caraterísticas uma luta esportiva particular.
O terreno fica pronto para a Direção da Informação e da Propaganda inspirar, entre 1938 e 1945, escritores nacionalistas, favoráveis ao regime ditatorial populista de Getúlio Vargas, numa nova escritura da história do Brasil na qual transformam a relação já distorcida de Pereira da Silva em uma fábula, onde, frente ao perigo, todos os Brasileiros reconciliam-se. Para conseguir isto, basta tratar de mercenários estrangeiros os coitados alistados por engano no exército imperial, uma caraterização que evoca algo muito diferente do que a revolta dos escravos brancos que sobresai dos relatórios da época. Para reforçar ainda o traço, às vezes incorpora-se no caso o personagem do Major Vidigal, comandante de força policial e perseguidor dos negros capoeiras, aposentado hà vários anos no momento dos fatos, e a quem atribui-se a mobilização das suas antigas vítimas.[3]
Faltando autores mais rigorosos nas suas pesquisas, e conforme ao papel da História em criar mitos nacionais, estes escritores mais nacionalistas do que escrupulosos continuem a servir de referência, inclusive em determinados trabalhos recentes. La literatura de capoeira permanece sob influência, e retoma estes mitos, que fazem da capoeira uma modalidade nacional.
Acontece que a capoeira pode também interpretar-se como uma luta de pessoas discriminadas em razã da sua origem mais ou menos africana, contra as classes dominantes do Brasil.
Primeiramente simples espaço de autonomia, onde o senhor branco não tem nada a ver, o jogo da capoeira, reprimido no Rio de Janeiro, vira na capital uma luta física para o espaço urbano, uma contestação em atos do monopôlio estadual do uso da violência. Quando os distúrbios da ordem tem motivo claro, os chefes da polícia usam outros termos: revolta, tumulto. Quando as exhibições dos capoeiras desafiam as capacidades combativas da polícia, quando aqueles que ousam aproximar-se deles acabam agredidos, batidos ou feridos, como o seriam negros quaisqueres que ousariam mexer com os negócios da polícia, a autoridade chama essa audácia de capoeiragem. Em outras cidades do Brasil, quando os relatórios policiais mencionam desordens urbanas, tratam de turbulentos e desordeiros, não de capoeiras. Ao que parece, a marginalização vem depois da repressão, e não o contrário.
Mas estes fatos correspondem a uma visão étnica afro-brasileira da capoeira e opõem-se por isso mesmo à sua institucionalização como modalidade esportiva national. Primeiro por que os políticos nacionais, em geral, não gostam de reconhecer as divisões internas ao país, em segundo porque uma capoeira negro-brasileira dificilmente pode ficar sob o controle de uma burocracia tirada das camadas dirigentes do Estado brasileiro tal que ainda hoje é, isto é, quase que exclusivamente branco.
Os capoeiristas, esperamos, freqüentam demais a falsidade para se deixar enganarem por uma fábula oficial...
... inspirada pela má vontade em aprender dos negros capoeiras uma lição de vida. Em vez de ir humildemente à escola dos mestres, inventa-se ou propaga-se estas fábulas para classificar o jogo de capoeira na categoria européia existante das ténicas de combate.
[nota 1] observação de Capistrano de Abreu
citada por Ligia Osorio Silva,
Propaganda e Realidade: a imagem do Império do Brasil nas publicações francesas do século XIX
,
Revista Theomai, n. 3, Quilmes, 2001. Em introduçã ao trecho que apresentamos do seu
Secondo periodo do reinado de Dom Pedro I citamos outros críticos.
Começamos por fazer uma lista dos problemas políticos
do reinado de D. Pedro I, de 1822 a 1831.
O mais conhecido é o da independência do país, que não aparece como
firmemente estabelecida, enquanto o filho e herdeiro da coroa
do antigo poder colonizador dirige o Brasil. Uns desejam a reunificação,
outros querem garantir a independência. O segundo problema que divide os
Brasileiros é o da concentração do poder.
A idéia de um Estado soberano, isto é, cujas leis impõem-se a todos, está longe
de seduzir os senhores do interior e também todos os donos
de escravos
que querem mandar na sua gente
em todo; a dominação da capital não
agrada muito à elites provicianas; de outro lado, os entre os seus filhos
que estudaram em universidades de Portugal e da Europa, querem un Estado brasileiro
poderoso e que permanece unido, contrariamente às antigas colónias
espanholas rasgadas por lutas entre os seus caudillos.
O terceiro problema é a atitudo para se manter frente aos pedidos britânicos
de por fim, senão à escravidão, pelo menos ao tráfico negreiro. Alguns vêm
no colono européio uma mão de obra mais rentável do que o escravo importado
da África, mas a maior parte não querem mudar de jeito algum as relações de
trabalho, e, em conseqûencia, só querem cativos, qual for a sua origem.
Em 1826, a província de Montevideo (hoje Uruguai), ocupada pelos Portugueses desde 1818, subleva-se. Os habitantes, falantes de espanhol, sentem-se mais atraídos pela federação das Repúblicas espanholas da Prata (hoje Argentina) do que pelo Império do Brasil. O Brasil entre em guerra e decreta o bloqueio dos portos, apoderando-se de navios neutros, o que cria incidentos diplomáticos com a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América do Norte. A guerra exige tropas: muda-se o contrato dos colonos agrícolos européios que um agente, o coronel Cotter, ocupava-se em recrutar na Irlândia e na Alemanha, para impor-los um tempo no exército. Chegando no Brasil, descobrem que devem ser servir como soldados, e que nada existe para a sua instalação. Eles iniciam a sua estadia no Brasil submetidos à penuria e a um severo regulamento militar que faz como o povo os trata de escravos brancos. Estes colonos virados soldados certamente não são todos pacatos trabalhadores, e inimigos da embriaguez e da perturbação. Quaisqueres sejam as suas origens, logo se desgostam, e, submetidos, dizem, a oficiais ladrões, tendem à marginalidade, negando-se a pagar o que eles tomam dans lojas e aos vendedores e vendedoras de rua. Talvez houve estupros: muito poucos colonos vieram com as suas mulheres. É provável também que não se perdoa a estes estrangeiros delitos também cometidas por soldados brasileiros, que ao contrários deles, ficam inserido nas redes de proteção e de dependâncias de que a sociedade brasileira é tecida. Os comentadores da época insinuam, de outra parte, que aqueles Brasileiros, pertencendo à poderosas famílias, que opõem-se ao poder do Imperador, fosse por este ser Português e suspeito de querer acabar com a independência do país, ou fosse para reduzir ao mínimo o poder do Estado central, jogam voluntariamente óleo no fogo, para provocar uma crise que seria a causa da dissolução daqueles regimentos direitamente submetidos a D. Pedro I.
No 9 de junho de 1828, um castigo desmedido, inflito por um motivo de vez fútil e duvidoso a um soldado alemão -- 250 açoites, podendo significar a morte na tortura, sem contar que no Brasil, os livres não levavam açoites -- provoca, no 201º açoite inflito à frente da tropa, à sublevação. Os soldados apelam ao Imperador, que nega-se a recebê-los. Eles entrincham-se nos seus quarteis, e dois outros regimentos se rebelam, matando o pondo em fuga oficiais brasileiros. Chega a noite. É uma crise como ainda se conhece em nossos dias: as autoridades querem retomar o controle, mais ficam enfraquecidas; os poderes estrangeiros, as marinhas francesa e britânica, que dispõem de uma força considerável na Baia de Guanabara, querem, sem demostrar-se partidários, preservar a vida e os bens dos seus conterrâneos; e a oposição política procura aproveitar da situação. Un dia passa sem decisão. Os Brasileiros de todas as tendâncias concordam em reduzir a revolta pela força. Para impedir a comunicação entre os três quarteis insurgentes, põem os soldados estrangeiros fora da lei, pode-se ferir e mata-los sem risco de sanção penal. Homens e crianças das classes mais baixas de livres e escravos perseguem os isolados. Estas presas, que não são realmente guerreiros, escondem-se, ou, com mais freqüença, caiem feridos o mortos. Nos dias seguintes, as tropas de artilheria e a cavalaria do Minas Gerais retomam o controle dos quarteis. Os revoltosos sobrevivantes são presos, e na sua maior parte, ora mandados de volta para Europa, ora expediados nas províncias. Il faut signaler que plusieurs, qui ont quitté le Brésil pour d'autres pays d'Amérique du Sud où ne sévit pas l'esclavage, y ont fait une vie honorable. No Rio, o Imperador perdeu o seu exército pessoal. No 5 de julho, o Contra-Almirante françês Roussin chega no Rio com um divisão naval (um belonave de 74 canhões, três frigatas de 40), para exigir reparações para a captura de navios de comércio franceses durante o bloqueio da Prata. Claro, a discussão demora pouco tempo. Nenhum dos problemas políticos que citamos no início sendo resolvido, o poder de Pedro I vacilará até cair em 1831.
Manoel Nunes Vidigal nasceu no Brasil. Em 1770 engaja-se na milícia. Tendo atingido a patente de Major, é incorporado na Guarda Real de Polícia na sua criação em maio de 1809, como ajudante-de-campo dos seu primeiro chefe, o Coronel José Maria Rabelo, vindo de Portugal junto com a Corte no ano anterior. Nesse tempo, Vidigal tem ao menos cinqüenta anos. Será depois comandante-em-segundo da polícia, antes de comandar-la com patente de general, nos últimos dias da presença de João VI no Brasil em 1821. Aposenta-se com honras e a patente de Marechal-de-campo alguns meses depois da Independência do Brasil, em 1824. Falece em 1843.
Uma tradição segundo a qual teria sido capoeirista, aparecida primeiramente debaixo da pena de escritores da Direção da Imprensa e Propaganda do Estado Novo por volta de 1938, conheceu deste então um determinado sucesso. Os viajantes britânicos Luccock e Walsh depõem sobre o recrutamento militar, tanto em milícias colonias entre a Guarda de Polícia, de elementos violentos e associais, que deste jeito viam-se dispensados de outra sanção. Os mesmos autores constatam que a vida de soldado de polícia não transformava estes marginais. Também indicam que os chefes de polícia preconizavam métodos brútais demais para que arriscassasse-se a procurar detalhes demais sobre a sua instituição. O escritor Manoel de Almeida (1831-1861) deu uma descrição de Vidigal no seu Memórias de um sargento de Milícias, (1852-1853), provavelmente inspirada das lembranças de um jornalista de idade mais avançada40anos recolhidas enquanto trabalhava no Correio Mercantil. Manoel de Almeida não menciona habilidade marcial algum na personagem de Vidigal. Também, quando ingressou na Guarda de Polícia, a idade já não permetia grandes façanhas. Os historiadores propagandistas, conscientemente ou não, jogaram na confusão popular entre os marginais e os seus adversários policiais, não muito mais freqüentáveis. O fascínio pela França tinha colocado nas livrarias, já fazia tempo, a tradução das Memórias de Vidocq a figura de um bandido virado chefe de polícia podia inspira-los. Antes de terminar, há de reparar que antes da segunda metade do século 19, todos os documentos associam tanto a atividade do capoeira homem, como o jogo de capoeira, exclusivamente aos Negros, e que a não ser os depoimentos de Rugendas e de Earle, não temos informação alguma sobre a forma desta atividade e deste jogo.
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Lucia Palmares & Pol Briand