Association de capoeira PALMARES de Paris. |
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O pedantismo raquítico de nossa sociedade atual não cessa de apregoar o
trecho latino mens sana in corpore sano, ao mesmo tempo que em desproveito
do próprio corpo entulha o cérebro de asneiras, de uma ciência indigesta, não
se lembrando que a grande parte de atrofia de que se ressente o povo da
capital fluminense é devida a um trabalho incompleto de civilização.
A semelhança de abortos, de fetos que se desenvolveram fora da vida uterina,
mais do terço desta população faz maldizer o sol que deixara de sera escultor
para constituir-se fabricante de caricaturas, de indivíduos amarelos, de pernas
finas, espingolados e miopes, verdadeiros símbolos da degeneração da
mestiçagem brasileira, tão correta e distinta nos seus troncos primitivos.
Essas considerações, que podem ser constatadas a qualquer momento, que se
verificam em presença a qualquer momento, entre a qual se podem escolher
livremente esqueletos ambulantes, cor de lobis-homens, nos surpreenderam
de improviso, ao recordamos um Hercules de Puget, nas formas e na força --
o capitão Nabuco.
Descendente de uma família ilustre, filho de um desembargador e membro do
Supremo Tribunal de Justiça, o Nabuco conviveu com a melhor gente do
tempo, e o seu nome e o seu pulso, bem como os dos heróis de Homero, são
aclamados pela voz pública, envolvidos em uma atmosfera de legenda.
Sem discrepância, contemporaneos seus, que ainda existem, conservam-se
fieis à tradição, não havendo a menor divergência sôbre o prodígio de sua
fôrca e as histórias de seu valor.
Perguntai aos habitantes desta cidade, cuja idade exceda dos cinquenta anos,
quem foi êle, e de noventa por cento ouvireis casos assombrosos de suas
lutas atléticas, de sua dináamica de bronze.
Êsse homem, em cuja ossada iuseriam-se músculos de ferro era de estatura
mediana, champrudo e tinha os braços e os ante-braços tornecidos por
musculatula de Cíclope, burilando-lhe o tôrso um modelado de jogador de
disco da estatuária grega.
Sentando praça no exército, o cadete Nabuco teve de seguir para Nápoles,
fazendo parte da comitiva que foi buscar Sua Majestade a Imperatriz. Alí, ao
que se diz, esteve para casar-se com uma princesa, porém a sorte foi-lhe
adversa nesse ponto.
Desde que chegou ao Rio de Janeiro, o capitão Nabuco atirou-se ao tumulto e
aos desregramentos, acompanhado de rapazes destemidos e valentes.
Calmo quase sempre, entronizado na sua fôrca descomunal, não consta que
fôsse uma única vez agressor, nem provocador de lutas e de desordens.
Se por acaso o empurrassem no caminho, êle não se abalava, mas seguia; se
lhe derrubassem o chapéu por atroamento ou descuido, abaixava-se,
apanhava-o, e não tirava o mínimo desfôrco.
Lento nos movimentos, imperturbável diante do perigo, discreto nas suas
resoluções de forte, nascera antes para mover montanhas do que para revirar
homens, para malhar cadeias, que aprisionar vencidos.
Como Tubalcaim, tinha alguma coisa dos primogênitos da terra, dos
coetâneos do cáos e das salamadras dos abismos.
Quando retraía o braço, qual mola flectida, o suor caía-lhe em gôtas como os
orvalhos primitivos, e o seu peito estalava da impulsão súbita.
Arrojado aos excessos, às imoderações báquicas, alguns episódios de sua
vida coloriam-se de reflexos característicos, o que não impedia que o rochedo
ficasse firme e de pé, ao embate das vagas e aos rumores das tempestades.
Na carreira militar o capitão Nabuco salientou-se bem pouco, mesmo porque
tinha negação à atividade disciplinar do soldado, à obediência passiva a um
labirinto de leis.
No meio de seus sonhos, de suas fantasias loucas, o seu gênio deixava-se
arrastar na torrente dos caprichos que o tornavam delinquente.
Daí, talvez, a sua retirada das fileiras, embora fôsse estimado como
cavalheiro e um exemplo como amigo.
Respeitado pelo povo, pois é do povo render verdadeiro culto ao que é forte,
o Nabuco, sem ostentação, sem exterioridade, exercia oportunamente a ação
de seu bicéps de gigante, fazendo estremecer de assombro os espectadores
que o admiravam.
Partir uma mesa com um soco, suspender nos ares um bilhar, arrancar uma
sacada de ferro e varejá-la à rua, eram fatos tão presenciados por muitos, que
tôda a população jurava tê-los testemunhado, asseverando-os.
Companheiro do Manduca da Praia, do Ataliba, e depois, do deputado
português Sant'Ana, o nosso campeão homérico excedia-os de distância
incomensurável na valentia do pulso e do braco.
Amigo dos primeiros, veio conhecer a êste ultimo no café Troyon, da rua
Direita, onde é hoje o hotel do Globo.
O exímio jogador de pau, o Hercules lusitano, almejava o instante que se
apresentava de medir fôrças com o capitão Nabuco, visto como a sua fama o
tentava e o seu punho não encontrara rival.
Eram nove horas da noite quando Sant'Ana entrou no café,.prevenido de que
lá se achava a celebridade com quem devia lutar.
Apenas encarou--o, arrastou uma cadeira para junto da mesa onde estava o
capitão, sentou-se, dirigindo-lhe a palavra :
-- Creio que falo com o capitão Nabuco...
-- Sou seu criado.
-- Aposto que não me conhece ?
-- Não aposto, porque em nada me interessa.
-- Pois fique sabendo que sou o Sant'Ana.
-- E o que me quer ?
--Que escolha as armas para bater-se comigo.
-- Ora, não me aborreça : para lhe dar pancada não preciso escolher armas,
nem levantar-me.
-- Perdão, replicou Sant'Ana, trata-se de medirmos forças e o cavalheiro não
pode recusar.
-- Pois seja.
-- Aqui mesmo ?
-- Aqui mesmo.
-- É em frente um do outro, braço contra braço, que combateremos, até que o
mais fraco se abata vencido.
-- Pois-olhe, continua frio e compassado o Hércules fluminense : eu para o
Sr. nem mudo de posição, nem me chego para a mesa... Vamos !
E aquele cotovêlo monstruoso ecoou pesado na tábua ; afluindo a vê-los todos
os grupos do salão.
Sant’Ana, cruzando o punho com o do seu adversário, empregava o maior
esfôrço apegado àquela barra de granito que nem de leve .se movia... O suor
corria-lhe gôta a gôta da fronte, o ronco do tórax percebia-se distinto, os
circunstantes admiravam os lutadores terríveis porem Nabuco, imperturbável
e logo que quis, arriou-lhe o braço sôbre a mesa, colocou-se outra vez em
posição, ordenando-lhe tranquilo e sobranceiro :
-- Agora bote dois : debruce-se sôbre a mesa, recoste-se, deixe-se cair
pendurado, como quiser.
Os assistentes prorrompiam em aclamações ao esforçado oficial, quando
Sant'Ana, aceitando o alvitre oferecido, empenhou-se em novo certamen.
Sendo ainda uma vez derrotado na queda de pulso restava ao capitão provocá-lo
para a última luta . Erguendo então o ante-braço, ao longo do qual as veias
desenhavam-se como cordas nodosas e os músculos com a rijeza do bronze,
levantou o dedo indicador e desafiou o campeão estrangeiro :
-- Para você não preciso de mais.
-- Aceito, respondeu-lhe o fidalgo, seu contendor, convencido do desastre
que o aguardava, mas querendo assim elevar a quem o humilhava.
E com a presteza de um pestanejar, aquêle malho de ferro caíu sôbre a mesa e
sôbre o punho alvo do forçoso deputado, à voz do capitão Nabuco, que
desdenhava, sereno e de bom humor :
--Já vês que não prestas para nada.
-- Entretanto, coheci um homem !
Os dois abraçaram-se, beberam champanha, os aplausos couberam a ambos,
restando do encontro titânico amisade que só outro pulso consegui separar
-- o da morte.
A fama dêste acontecimento foi tão estrondosa que muita gente ainda repete o
que vira ou ouvira, do mesmo modo, sem a menor discrepância.
Na vida dêsse homem extraordinário, uma série de fatos justapõe-se
comprovando a sua energia muscular.
Interrogai a tradição, conversai com os velhos soldados e officiais seus
companheiros de armas, e vos convencereis, pela uniformidade nas
informações, que os boatos aqui passados pela letra de fôrma exprimem a
verdade na sua pureza primitiva.
O capitão Nabuco, na existência mais ou menos acidentada que sempre
conduzira, avultava como um prodígio, como uma orgranização privilegiada
e estupenda.
De uma agilidade pasmosa, saltava de um sobrado de dois andares, executava
maravilhas de ginástica, sendo terrível se o acaso o colocava diante de um
povo de adversários.
Admirador apaixonado de João Caetano, frequentador assíduo do teatro
lírico, filiava-se a partidos, e os episódio que se narram de suas brigas não
destôam absolutamente de seus créditos espantosos.
Compendiando, embora fragmentadas, algumas notícias com relação à sua
força, o capitao Nabuco seria um personagem fantástico, se o testemunho de
generais de terra e mar, de mais de metade da população desta capital, não
estivessem aí para confirmar o que vamos expender.
Felizmente a arquibancada é vasta e não falamos à portas fechadas.
Em una noite clara e estrelada, o capitão Nabuco, acompanhado do Sant'Ana,
do Manduca da Praia e do Ataliba, dirigira-se a passeio ao pitoresco bairro
das Laranjeiras.
Naquêle tempo, ainda pouco habitado, o calçamento começava a ser
assentado, e na atual rua Guanabara, por onde transitavam os três valentões,
existia no chão um frade pedra que lhes embaraçava o caminho.
A êsse pequeno obstáculo sucedeu irritado murmúrio, ao que o nosso
Capitão, suspendecdo ao cólo a coluna de granito, andou com ela de um lado
para outro, pedindo aos companheiros que lhe indicassem onde a devia
colocar.
Na noite seguinte, no quartel de cavalaria -- contou-nos um dos nossos mais
ilustres generais -- arrebentou com um sôco uma porta de madeira rija e
chapeada de ferro.
Na majestade de seu vigor, no domínio pleno de suas energias, o jovem
capitão sentia-se desfalecer.
As vêzes, dizia ele desalentado:
-- Olhem, meus amigos, sou tão desgraçado que só posso apanhar; porque
se eu der, mato.
Descuidoso de seu futuro, afogrando-se no torvelinho da vida, os seus dias
escoavam-se em noites veladas nos salões dos hotéis, nas casas de bilhar, nos
atropêlos de tôda a casta, como que se antecipando à morte.
Alvo das vistas populares, orgulhoso do respeito das turbas que o festejavam
por suas proesas, o esforcado fluminense exibia-se nas praças públicas,
segundo seu capricho ou a oportunidade do momento.
Uma ocasião rodava pelo largo de S. Francisco de Paula uma gôndola tirada
por quatro bestas novas e ariscas.
O capitão dando sinal ao cocheiro a que parasse, este não o obedeceu,
respondendo-lhe que a lotação estava completa, que não havia lugar.
Aborrecendo-se o Nabuco com o que lhe dissera esse homem, deu alguns
passos, ao que o chicote estalara repetido da boléia, fustigando as bestas em
disparada.
De repente as parelhas empinaram, a gôndola estacou, ouvindo-se uma voz
que bradava:
-- Se não me der lugar, não segue.
Era o nosso Hércules que, fixando com a mão direita o eixo da roda e com a
esquerda um dos raios, a impedia de mover-se.
À vista dessa resolução, um dos passageiros subiu para as imperiais e o
capitão Nabuco, galgando o estribo, sentou-se.
No largo do Rocio, estaudo ele na Petalógica, o desembargador seu pai
passava de carro.
Ao avistar o filho, com quem tivera ligeira desavença, ordenou ao cocheiro
que tocasse os cavalos, que tocasse sempre.
Nisso o forçoso oficial abandona os aniigos, espera a carruagem, e apenas se
lhe põe no alcance, trava-a de súbito, pedindo a benção a seu venerando pai e
um suprimento de dinheiro.
Em tais casos, que fazer ?
Quando esta cidade era visitada anualmente por celebridades europeias,
quando escritores, sábios, ginastas, cantores, artistas dramáticos, músicos
notáveis, hércules de teatro e de barracas, vinham entre nos conquistar mais
louros à sua fama, aqui aportara um lutador de renome, chamado Mr.
Charles.
Os annúncios de desafio choviam em cartazes, com retrato, pregados ás
portas dos teatros e nas paredes dos edifícios; os jornais publicavam a notícia
dos espetáculos e as condições da luta; e o povo e as famílias, prevenindo-se
de bilhetes e entradas, ansiavam pela festiva noite, verdadeiramente romana.
No maior segrêdo dizia-se aqui e alí que êste ou aquêle negociante, este ou
aquêle indivíduo altomente colocado tomaria parte no espetáculo para o que
mandara fazer luxuosa vestimenta de meia, e comprara nesta ou naquela loja a
máscara para bater-se incógnito.
Os boatos espalhavam-se em todos os círculos, à proporção que o nome do
lutador francês crescia na imaginação pública como ideal da fôrca e da arte.
Na noite marcada o teatro de S. Pedro abriu mais cêdo as suas portas,
recebendo deslo logo enchente real.
Nos camarotes as famílias colocavam sobre cadeiras belos ramos de flôres
com que juncariam a estrada do palco trilhada pelo vencedor.
A luz brilhava no grande lustre do centro, as arandelas jorravam fios de âmbar
nos raios da luz, e a orquestra terminava a ouverture.
O contra-regra, trilando o apito, o pano subiu e algum tempo depois apareceu
em cena Mr. Charles, o Hércules formidável, que vinha ajustar fôrças no Rio
de Janeiro.
Na realidade estava-se em presença de um colosso: alto, robusto, atletico, o
francês possante orgulhava-se da musculatura correta e titânica.
Adiantando-se na cena, as palmas foram estrepitosas e os aplausos sem fim.
Chegando-se mais, colocou-se no meio do tablado, escolheu a posição da
luta, seguindo-lhe o primeiro mascarado ao encontro.
Naquele corpo untuoso como o dos seus antecessores romanos, a mão do
contendor deixando de encontrar apôio firme, escorregava, o que equivalia a
pronta der rota no esfôrço dêste.
E êste e outro e ainda mais outro morderam a arena, quase sem esfôrço,
quando um novo máscara, transpondo os bastidores, chega-se para a bôca da
cena inclina-se diante do público e, medindo o seu terrível competidor,
aproxima-se resoluto.
-- Era o capitão Nabuco!
O encontro dos dois Hércules dir-se-ia o entrechocar de duas montanhas.
Por alguns minutos a luta correu segundo as regras, os preceitos
estabelecidos.
Num momento, porém, como que prêso entre duas tenazes de ferro, Mr.
Charles arquejou opresso e caíu redondo como um corpo morto.
A platéia, os camarotes, as torrinhas aclamaram e atiravam, flôres sôbre o
triunfador, que não aparentava a mais leve fadiga.
O francês cuspia sangue...
* * *
O capitão Nabuco faleceu em 1863 ou 1864, deixando um filho que lhe
herdara a mesma energia muscular.
Quando essa criança tinha apenas seis anos -- refere quem a conheceu --
suspendia um peso de arrôbas.
Que destino teve, se é vivo ou morto, não pudemos indagar.
A memória de seu pai, entretanto, está viva como outróra na lembrança do
povo.
Neste país já é alguma coisa!
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